quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Capítulo VII

- Ei, cuidado com as instruções que você usa, Janete! Um movimento em falso e a missão estará comprometida! – disse André, enquanto se preparava para acessar o programa de computador que interceptaria o cérebro da artesã.

- Não é fácil hackear o cérebro de uma inteligência artificial incrivelmente poderosa, André! Estou tomando o máximo de cuidado possível. – retrucou Janete, que estava muito ocupada resolvendo os quebra-cabeças de auto-defesa da mente de Mishiro. – Continue preparando o vírus enquanto eu cuido da criptografia.

Por alguns instantes, Janete pensou que não conseguiria burlar as defesas da artesã. Ela havia se deparado com o mais complexo algoritmo de encriptação que vira até então. Mas não podia falhar. Não depois de ter prometido à sua avó que vingaria a morte de seu pai. Não depois de ter lutado tanto ao lado do comitê revolucionário. Precisava rever o sol ao menos uma última vez. O sol verdadeiro, não uma imitação virtual realista.

As motivações de Janete pareciam torná-la ainda mais inteligente; a cada nova etapa, a cada cálculo e quebra-cabeças que surgiam, a garota tinha mais certeza de que conseguiria abrir as portas da mente de Mishiro.

Ao se deparar com a última porta, porém, Janete parou. Precisava tomar uma decisão importante e, por isso, decidiu dividir a escolha com André.

- Eu já descobri como decodificar as informações, mas preciso que você me ajude a fazer uma escolha. – disse Janete ao rapaz.

- Que tipo de escolha? – perguntou André.

- Há duas chaves de decodificação, mas eu não sei qual delas devemos utilizar – respondeu a garota. – Talvez não exista diferença entre usar uma ou outra, mas acho pouco provável. Senão, haveria apenas uma chave. Estou preocupada...

- Entendi – André estava impressionado com a capacidade de Janete; não era a primeira vez que a vira invadir um sistema de segurança, mas desta vez ela com certeza havia se superado. Havia criado duas chaves para uma porta fortemente protegida, em um ambiente nada familiar. Por um instante, André imaginou como Janete poderia se tornar uma artesã habilidosa, caso vivessem ali para sempre. Mas logo voltou a si; não podia acreditar que estava sequer cogitando viver naquele lugar. Não depois de tudo que passou para chegar até ali. Sentiu nojo de si mesmo por causa disso. “Meus amigos dependem de mim”, pensou André. – Parece que estamos em um impasse. Creio que você deve escolher qual chave devemos usar, afinal, foi você que conseguiu decifrar todos esses códigos.

Janete hesitou por um instante, mas sabia que era inútil tentar descobrir qual era a chave correta.

- Então está decidido. – disse a garota, enquanto começava a projetar uma das chaves em direção à porta.

Ao entrarem na mente da artesã, o limbo em que estavam mudava de forma. O lugar deixou de ser negro como a mais escura das noites, adquirindo uma tonalidade rosada, como se a mente de Mishiro estivesse se manifestando através de um gesto de boas-vindas. Os dois estavam abismados com o que acabavam de se deparar: palavras flutuando, flashes de imagens e clipes de vídeos, vozes e músicas... tudo acontecendo ao mesmo tempo. Era informação suficiente para anos de estudo no mundo natural.

- Ela é toda sua – disse Janete.

- Pode deixar comigo. – disse André.

O garoto a beijou e deu início à segunda etapa do plano: descobrir as fraquezas do sistema.

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