quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Capítulo III

Durante o caminho, os dois não conversaram. A viagem até a estrada de acesso durou não mais do que duas horas. Afinal, não havia ninguém além dos dois jovens naquela estrada. Ao se aproximarem da cidade, perceberam que o ar era carregado, como se fosse possível sentir a aura emanada pelas máquinas que davam vida ao mundo virtual.

Cerne era imensa: quanto mais próximos chegavam, menos conseguiam enxergar a luz do sol ou a paisagem que a cercava. A menos de um quilômetro da entrada da cidade, não era mais possível ver nada além de prédios moderníssimos com aspecto futurista e minimalista - a não ser que se olhasse para trás, o que não era uma opção para André e Janete.

O calor das máquinas podia ser sentido de dentro do carro, o que os deixou desconfortáveis, mesmo com o ar condicionado ligado. Já estavam a menos de trezentos metros de distância dos portões da cidade, e quanto mais se aproximavam, mais dúvidas surgiam. Ao chegar no portão, antes de sair do carro, Janete pegou a mão de André e fez menção em dizer algo, mas fora surpreendida por um beijo do garoto.

- Ainda não, Janete. Nós voltaremos dessa, não se preocupe. Vai dar tudo certo. - E então saíram do carro em direção ao portão mais próximo.

Ao se aproximarem, perceberam que dúzias de câmeras os observavam e que a espessura dos muros que protegiam a cidade era muito maior do que aparentava. Precisavam se proteger de possíveis ameaças, pensou André. Ameças como eles dois.

Mas não era a intenção dos jovens atacar a fortaleza com força bruta. Sabiam que era inútil. Antes da instauração plena do mundo virtual, todos os países tiveram de se desfazer de seus arsenais militares, o que impossibilitava um ataque armado à cidade núcleo.

O que planejavam, ao invés disso, era acabar com o mundo virtual por dentro, de maneira mais sútil. Utilizando astúcia ao invés de força, burlariam a segurança do mundo virtual e o tornariam instável através de ataques man-in-the-middle (interceptar dados) e hijacking (assumir o controle) na fase incial de seu plano. Posteriormente, tornariam-no inoperante através de um ataque Denial of Service fatal, a chave para a reascenção do mundo natural. Mas estavam longe de alcançar o que desejavam. Ainda precisavam entrar no mundo virtual para executar sua missão.

Ao se aproximarem da entrada, os dois foram revistados por aparelhos de raios-X. Como estavam “limpos”, logo foram encaminhados ao setor de transição, aonde passariam seus últimos momentos como humanos - não por muito tempo, pois o processo de reversão tinha que funcionar, esperava Janete.

Os dois estavam apreensivos, mas muito focados em seus objetivos. Mesmo o amor que havia entre os dois teria de esperar. Afinal, se conheceram justamente por lutarem pelos mesmos ideais. Além disso, os dois estavam confiantes de que conseguiriam por seu plano em prática.

Fizeram exatamente como uma voz eletrônica os solicitou. Cada um deles foi encaminhado a uma salinha diferente, aonde começaram o processo de transferência de mentes.

Ao entrarem em suas respectivas salas, os dois perceberam que não estavam mobiliadas, exceto por um assento preto reclinável no centro da sala. E haviam mais câmeras, é claro.

- Isso é muito estranho! Parece mais que estamos começando um ritual do que um processo de transferência de mentes! - gritou André, na esperança de que Janete, que estava na salinha ao lado, o ouvisse e o respondesse. Mas para a tristeza do rapaz, isso não aconteceu.

A voz eletrônica solicitou aos garotos que tirassem suas roupas, pois seus corpos seriam escaneados e convertidos em um modelo tridimensional de alta resolução, que seria utilizado como base para o corpo que desejassem ter no mundo virtual. Logo após, a mesma voz os solicitou que deitassem no assento reclinável. A partir daquele momento, deu-se início ao processo de transferência de mente.

Braços robóticos surgiram das paredes e do teto. Janete percebeu que um dispositivo com formato elíptico (parecido com aquelas máquinas utilizadas para se fazer penteados nos salões de beleza de filmes americanos) estava sendo colocado em sua cabeça, bem como diversos adesivos de captação neurológica estavam sendo anexados ao seu corpo.

O processo de transferência era exatamente como lhes haviam contado. A sensação porém, era muito pior do que haviam imaginado. André sentia como se todas as suas lembranças estivessem sendo projetadas em sua mente ao mesmo tempo; não conseguia raciocinar, nem se mover. Agonia, pensou o garoto. Era a única palavra capaz de explicar o que estava sentindo.

“A transferência de mentes pode causar mal-estar, enjoos, pânico e uma série de outros sintomas e sensações ruins. Mas não se preocupe: o processo dura somente alguns instantes. Será a última dor que irá sentir (sem desejar). Depois disso, terá tudo aquilo que desejar. Venha até Cerne, e descubra o que a vida no mundo virtual tem para oferecer. Você não irá se arrepender. Ninguém se arrepende”. André não podia acreditar que a dor mencionada nas propagandas do mundo virtual era tão insuportável quanto a que estava sentindo naquele momento. Sua última lembrança como humano foi o rosto de Janete, na primeira vez em que a beijou.

A última lembrança da garota, por sua vez, foi a dor excruciante que sentiu em sua cabeça no momento da cópia. Quando a transferência terminou, seus corpos foram recolhidos pelos braços robóticos e encaminhados ao setor de descarte.Estava dado início à corrida contra o tempo. Se quisessem destruir o mundo virtual e voltar ao mundo natural antes que seus corpos fossem descartados, precisavam agir rapidamente.

Capítulos I e II

Olá novamente pessoal! Finalmente sairam os dois primeiros capítulos da jornada de Janete! Provavelmente o capítulo 3 saíra ainda hoje!

Capítulo I

Janete estava em casa, descansando depois de um dia trabalhoso no comitê anti-ciborgue. Mas por estar ansiosa com o que estava por vir, não conseguia dormir. Pensava a todo momento em sua missão, e quando lembrava que a única esperança de sobrevivência do mundo natural dependia de seu sucesso, ficava ainda mais agitada.

Tentava não pensar na possibilidade de falhar. Afinal, estava determinada e sabia exatamente o deveria fazer: se infiltrar no mundo virtual para sabotá-lo por dentro. Era uma missão arriscada e complicada, e o comitê sabia que as chances de Janete ser descoberta durante a sabotagem eram grandes. A única coisa que confortava Janete era saber que seria ajudada por André, seu companheiro.

André também fazia parte do movimento anti-ciborgue, mesmo lugar onde conhecera Janete. Naquela época - não tão distante, para falar a verdade - os dois haviam aderido recentemente à causa do movimento, e começaram a frequentar as reuniões que aconteciam no comitê. Por ser tímido diante de mulheres bonitas, André nunca tinha tido coragem de falar com Janete; mas já sabia que sentia algo diferente pela garota.

Em um certo dia, porém, os dois - que haviam se inscrito para fazer parte de uma operação revolucionária - foram convocados a fazer parte da missão de sabotagem. Após terem sido escolhidos, André foi deixando a timidez de lado quando estava com Janete. Ela era uma boa amiga, mas André sentia uma atração muito forte pela garota, como jamais havia sentido antes. Como havia de acontecer mais cedo ou mais tarde, em um dia qualquer, os dois acabaram se beijando e, a partir deste momento, começaram a namorar.

Os dois jovens haviam sido submetidos a exaustivas seções de treinamento de comportamento e estudo do funcionamento do mundo virtual, ao qual haviam obtido informações de um outro membro que havia se infiltrado desde a fundação do movimento. Sentiam que, após tanto tempo de preparação, estavam prontos para por seu plano em prática. Definitivamente, aquela era a hora certa.

...

Depois de rolar pela vigésima vez seguida de um lado para o outro na cama, Janete decidiu levantar e preparar uma xícara de café. Enquanto bebia com cuidado para não se queimar, a jovem se perguntava como seria a vida no mundo virtual. Será que lá era possível sentir o aroma de café? E o seu gosto? E se queimar? Será que era possível sentir dor?

Janete não sabia o que pensar, pois nunca havia estado lá - e nunca questionara o membro do comitê que estava infiltrado sobre coisas tão fúteis. Mas estava curiosa. Logo descobriria, pensou. Terminou de beber o resto do café e se encaminhou para o banheiro, pois deveria estar pronta para partir antes das 06:00.

Capítulo II

Ao abrir a porta para sair de seu apartamento, Janete se deparou com André. O rapaz vestia um terno azul marinho e carregava uma maleta prateada em seu braço direito. Exatamente como um daqueles agentes de filmes de ação, pensou Janete.

- Não podemos nos atrasar, então fiz questão de vir aqui pra te chamar, caso fosse necessário - diz André, completando com um sorriso que dizia “Olá, gata”.

- Até parece, André. Eu já estava de pé há tempo. Não consegui dormir, na verdade. Acho que posso dizer que estou um pouco nervosa por causa da missão.

- Você, nervosa? A senhorita “tudo está sob controle” está nervosa? - disse André ironicamente, que muda de postura ao perceber que a garota está falando sério - Eu também estou um pouco nervoso. Afinal, não podemos falhar se quisermos continuar vivendo aqui fora, não é?

Abraçou-a e deu-lhe um breve beijo. Estava na hora de ir para o Cerne, a cidade-servidor, a sede do mundo virtual. À frente do prédio onde moravam, estava estacionada uma Mercedes SL 65 AMG.

Ao entraram no carro, receberam uma mensagem do líder do movimento anti-ciborgue, com um resumo da missão (não custava nada reforçar a ideia na mente dos garotos) e uma mensagem de boa sorte. A mensagem parecia mais um lembrete que dizia “se falharem, estamos perdidos”, do que um “boa sorte”, o que fez com que os garotos se sentissem ainda mais pressionados. Mas sabiam o que tinham que fazer. André deu a partida. Haviam começado a missão oficialmente.