- Como foi que você nos descobriu? - perguntou Janete a Wegner, com a voz embargada.
- Veja bem - disse o cientista. - Ao se deparar com a última trava de segurança da mente de Mishiro, vocês acabaram utilizando a chave incorreta.
- Droga! Então a culpa foi minha – disse Janete enquanto uma lágrima escorria de seu rosto.
- De certa forma, sim. Mas a escolha que você foi forçada a fazer era injusta. Nenhuma das chaves era a certa. O sistema anti-invasão foi projetado por mim, assim como a grande maioria dos primeiros sistemas do Cerne. Existem apenas duas chaves que dão acesso completo à mente de um indivíduo: uma delas pertence exclusivamente ao dono da mente; a outra, a chave mestra, pertence exclusivamente a mim. Qualquer outra chave dará acesso apenas às informações que o indivíduo dono da mente permitir. Esse foi o seu erro, confiar que haviam aprendido tudo sobre o funcionamento do nosso sistema na aula de Mishiro.
- Droga! Eu sabia que deveria ter confiado nos meus instintos! – Janete começou a chorar.
- Não Jane, a culpa é minha. Eu que não fui capaz de ajudá-la a descobrir que as chaves eram apenas um truque – André a abraçou.
- Não chores, Janete – disse o velho cientista, em um tom quase que paternal – Estou impressionado que tenham aprendido tanto com minha filha Mishiro em um só encontro. Há tempos que não encontro prodígios como vocês dois. Mas vocês ainda tem muito a aprender.
- E o que vai acontecer com os nossos corpos? Vão descartá-los e nos apagar da memória do Cerne, não é? – a voz apavorada de André deixava eminente o ódio que sentia pelo Novo Mundo.
- Acalme-se, jovem rapaz. Não há o que temer. Ninguém é forçado a viver aqui no Novo Mundo. Mas mesmo assim, até hoje, ninguém jamais deixou este lugar para voltar ao mundo natural. Não lhe intriga saber por quê isso nunca acontece? Vamos... Não me diga que você não se sentiu tentado a viver aqui nem por um segundo. - pela expressão dos dois, Wegner percebeu que eles estavam em conflito consigo mesmos - Minha intenção nunca foi destruir o mundo real que vocês tanto amam, meus bons jovens. Mas acontece que não há esperanças para quem vive lá. A terra é infértil, não há água potável. A natureza precisa de um tempo para se recuperar. Precisamos dar esse tempo a ela. E quanto aos corpos, não se preocupem. Estão intactos, prontos para o seu regresso, caso assim desejarem. Mas, peço-lhes que usem a cabeça. Façam a escolha certa.
- Você contou a mesma história para o pai dela, não foi? O ludibriou para que acreditasse em suas mentiras... - André estava confuso pelo o que o doutor havia dito. Lutava contra seu raciocínio para continuar odiando o lugar, mas estava ficando sem argumentos. Teria continuado a descontar sua raiva, se não fosse interrompido por Wegner.
- O que aconteceu ao pai dela foi um erro imperdoável, eu sei. Mas, por favor, deixe-me compensar este erro. - disse Dr. Wegner, olhando para Janete.
E então, num piscar de olhos, uma figura masculina surgira do limbo. O homem era alto e musculoso. Não aparentava ter mais do que trinta anos.
- Pai? - Janete não conseguia acreditar no que via. Fazia tanto tempo que não via o rosto de seu pai, que ela já não lembrava do quanto gostava de seu sorriso.
- Janete! O que está acontecendo? Como é que eu vim parar aqui? - apesar de estar feliz por rever a filha, o pai de Janete estava muito assustado.
- Seja bem-vindo ao Cerne, Jerônimo. - disse o doutor, com um sorriso no rosto. - Sei que isso é tudo muito repentino, mas você vai se acostumando aos poucos. - o homem olhava para sua filha, que chorava por encontrar seu pai depois de uma década sem a sua presença.
Jerônimo foi ao encontro de Janete e a abraçou. André, que estava próximo dos dois, parecia confuso com tudo o que vinha acontecendo - o que não era uma surpresa, sabendo que o jovem casal havia vivido tantas novas experiências em tão pouco tempo.
O pai de Janete fez um sinal para o garoto, como se o convidasse a se juntar àquele momento. O garoto se aproximou, e Janete o abraçou. André logo percebeu que ela estava diferente. Mas não havia sido uma mudança ruim. Pelo contrário, ela estava aliviada, mais leve.
- Vocês devem estar se perguntando como é possível que eu o tenha recriado exatamente como ele era no mundo natural e por que eu não fiz isso antes. - o doutor suspirou, fazendo uma breve pausa. Ninguém se manifestou; estavam aguardando por uma explicação. - Bem, vou responder a pergunta mais fácil por primeiro.
- É melhor ter uma boa explicação mesmo, Wegner. Pois não viemos aqui para ser enganados - interrompeu-o André.
- Jerônimo. - Wegner olhou diretamente para o pai da garota. - Graças aos testes que fizemos com você, o Novo Mundo pôde se tornar o que ele é hoje. E somos todos muito gratos a isso - quando Dr. Wegner mencionou a palavra todos, a imagem de diversas pessoas veio à mente de Janete.
Pela primeira vez desde que haviam chegado ao Novo Mundo, a garota se deu conta que estavam conectados a milhões de outros indivíduos. Dr. Wegner ainda conversava com Jerônimo:
- Pude recriá-lo por que sua mente não foi completamente danificada no dia do teste. Com um pouco do meu talento e com as habilidades de artesã de minha filha Mishiro, dar vida a uma pessoa não é uma tarefa muito difícil.
- Isso é certamente muito incrível, Dr. Wegner. Mas gostaríamos de saber: por quê você não fez isso antes? Ou por quê não nos procurou e não nos contou o que havia acontecido? - por conhecer Janete como ninguém, André falava como se fizesse parte da família.
- Receio que seja por causa de razões muito complexas que eu não posso explicar agora. Simplesmente, eu não podia recriá-lo sem a autorização de um familiar. As regras do nosso mundo não permitem que isso seja feito, pois há uma série de fatores que poderiam desencadear uma confusão generalizada e até mesmo desestabilizar o sistema. Agora que você está aqui, Janete, não haveria razões para que eu não o fizesse. - havia um pouco de culpa na voz do doutor, como se ele sentisse muito por não ter sido capaz de salvar Jerônimo. - Mas como eu disse antes a vocês, são livres para fazer o que acharem certo.
Os dois estavam pensativos, tentando processar todas as informações que haviam recebido. Como poderiam não gostar daquele lugar? Mais cedo naquele mesmo dia - ou pelo menos, acreditavam que estavam no mesmo dia - haviam ido a Paris. E tinham assistido às aulas de Mishiro. E haviam descoberto que tudo o que podia ser feito aonde moravam também podia ser feito ali. Até mesmo as pessoas que viviam lá poderiam viver ali, se quisessem.
Jerônimo, ao perceber a aflição da filha, como se pudesse ler a sua mente, falou:
- Querida, ele está certo. Eu não pude voltar para contar o que eu vi naquele dia, e eu sinto muito por isso. Sinto muito por não ter visto você crescer, por não poder ter lhe dado amor… São tantas coisas pelas quais eu gostaria de me desculpar - Janete voltou a chorar. - Mas uma coisa eu preciso lhe dizer: não há o que temer; não há nada de errado em viver em um mundo virtual. Acreditem em mim. Se eu não tivesse morrido durante a transferência de mente, toda a nossa família estaria vivendo aqui. As pessoas, às vezes, acabam não entendendo, ou não querendo entender, que o mundo natural deve ser deixado de lado, mesmo que temporariamente. A natureza não quer nossa ajuda, Janete. Ela tem força para lutar por si só; sempre foi assim e assim vai continuar sendo. Temos que dar um tempo à ela. Podemos fazer isso se vivermos todos aqui.
- Pai… Eu não… Eu não sei mais o que quero… - André fez menção de abraçá-la, mas Jerônimo foi mais rápido.
- Filha, vocês não tem que tomar uma decisão tão importante como essas agora. Descansem um pouco, conheçam lugares e coisas novas. Lembre-se do que sua avó sempre falava, Janete. A única coisa que funciona bem de cabeça quente é o fósforo.
A desconfiança que Janete tinha acerca da identidade de seu pai foi embora. Afinal, por mais que uma inteligência artificial pudesse ser criada a partir de memórias de outra pessoa, ela não conseguiria reproduzir exatamente o mesmo comportamento. O abraço e a maneira de falar confirmaram aquilo que Janete mais queria: aquele era seu verdadeiro pai.
- Seu pai está coberto de razão. Vocês devem conhecer melhor o Novo Mundo para poder fazer uma comparação mais precisa, inclusive você, Jerônimo. - depois de observar calado a reconciliação entre o pai e a filha, Wegner voltou a falar. - Vocês têm todo o tempo do mundo. E quando falo todo o tempo do mundo, eu realmente digo TODO. O tempo do Novo Mundo avança de uma maneira diferente do que estão acostumados. É muito próximo do conceito filosófico de tempo real que estudávamos no início do século XX. Melhor não entrar em detalhes.
- Mas o que eu vou dizer a eles? Como poderei voltar lá e dizer que, não somente falhei na missão, como deixei de acreditar nos ideais por que tanto lutei? - perguntou Janete.
- Isso é algo que vocês vão ter que descobrir sozinhos. Sejam criativos em seus argumentos e tomem cuidado quando voltarem ao mundo natural. As portas do Cerne estarão abertas a todos vocês.
E então o doutor desapareceu, desvanecendo na escuridão do limbo.
- E o que a gente faz agora? - perguntou Janete aos dois.
- Independentemente da sua decisão, sempre estarei com você - respondeu André, de mãos dadas com a garota.
- Que tal visitarmos Roma, enquanto vocês decidem? - sugeriu Jerônimo.
- Excelente ideia, pai! - disse a garota, com lágrimas nos olhos. Mas desta vez, as lágrimas eram de alegria.