quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Final


Depois de terem regressado do mundo natural, onde relataram todos os acontecimentos da missão ao comitê anti-ciborgue em uma tentativa de convencê-los de que transferir suas mentes ao Novo Mundo era a única saída, Janete e André decidiram tirar umas férias. Afinal, todo mundo precisa relaxara de vez em quando.

…..


Os dois estavam juntos à beira do mar de Fernando de Noronha, próximos à casa aonde Janete morava quando criança. Pela primeira vez em um longo período de tempo, os dois estavam agindo como um casal normal. Livres do fardo que haviam suportado por anos. Observavam as ondas batendo contra o banco de areia, enquanto tomavam água de coco. André percebeu que Janete ainda estava chateada por ter “traído” o movimento que apoiava.

- Fizemos nosso melhor, Jane. Assim como nós, eles vão acabar percebendo que o Novo Mundo é a melhor opção. - disse André.

- É, eu espero que sim. - Janete encostou sua cabeça no ombro de André e os dois assistiram despreocupados ao mais belo pôr-do-sol de suas vidas.

…..

André e Janete fracassaram em sua missão revolucionária. Mas isso não significava que a missão não havia trazido resultados proveitosos. Pelo contrário, a jornada do jovem casal serviu para abrir suas mentes a um mundo completamente novo: um mundo justo, aonde era possível encontrar a felicidade plena; um mundo melhor do que aquele que conheciam. Um mundo ao qual nunca haviam dado uma chance, justamente por estarem cegos em suas crenças e preconceitos.

Ao falharem em sua missão, os dois aprenderam que o fanatismo por suas causas os fez enfrentar situações de perigo desnecessárias e os fez deixar de enxergar a realidade: Wegner não era um vilão e a Terra não podia ser salva. Ao menos não naquele momento.

Felizmente para os dois, uma nova chance lhes havia sido concedida. André e Janete poderiam viver para todo o sempre no Novo Mundo. Se quisessem, poderiam até mesmo recriar o mundo em que viviam. Afinal, o mundo virtual também era composto de momentos prazeros e efêmeros…

FIM.

 

Obrigado por ter acompanhado a história até o seu desfecho! Espero que tenha gostado!

Capítulo IX


- Como foi que você nos descobriu? - perguntou Janete a Wegner, com a voz embargada.

- Veja bem - disse o cientista. - Ao se deparar com a última trava de segurança da mente de Mishiro, vocês acabaram utilizando a chave incorreta.

- Droga! Então a culpa foi minha – disse Janete enquanto uma lágrima escorria de seu rosto.

- De certa forma, sim. Mas a escolha que você foi forçada a fazer era injusta. Nenhuma das chaves era a certa. O sistema anti-invasão foi projetado por mim, assim como a grande maioria dos primeiros sistemas do Cerne. Existem apenas duas chaves que dão acesso completo à mente de um indivíduo: uma delas pertence exclusivamente ao dono da mente; a outra, a chave mestra, pertence exclusivamente a mim. Qualquer outra chave dará acesso apenas às informações que o indivíduo dono da mente permitir. Esse foi o seu erro, confiar que haviam aprendido tudo sobre o funcionamento do nosso sistema na aula de Mishiro.

- Droga! Eu sabia que deveria ter confiado nos meus instintos! – Janete começou a chorar.

- Não Jane, a culpa é minha. Eu que não fui capaz de ajudá-la a descobrir que as chaves eram apenas um truque – André a abraçou.

- Não chores, Janete – disse o velho cientista, em um tom quase que paternal – Estou impressionado que tenham aprendido tanto com minha filha Mishiro em um só encontro. Há tempos que não encontro prodígios como vocês dois. Mas vocês ainda tem muito a aprender.

- E o que vai acontecer com os nossos corpos? Vão descartá-los e nos apagar da memória do Cerne, não é? – a voz apavorada de André deixava eminente o ódio que sentia pelo Novo Mundo.

- Acalme-se, jovem rapaz. Não há o que temer. Ninguém é forçado a viver aqui no Novo Mundo. Mas mesmo assim, até hoje, ninguém jamais deixou este lugar para voltar ao mundo natural. Não lhe intriga saber por quê isso nunca acontece? Vamos... Não me diga que você não se sentiu tentado a viver aqui nem por um segundo. - pela expressão dos dois, Wegner percebeu que eles estavam em conflito consigo mesmos - Minha intenção nunca foi destruir o mundo real que vocês tanto amam, meus bons jovens. Mas acontece que não há esperanças para quem vive lá. A terra é infértil, não há água potável. A natureza precisa de um tempo para se recuperar. Precisamos dar esse tempo a ela. E quanto aos corpos, não se preocupem. Estão intactos, prontos para o seu regresso, caso assim desejarem. Mas, peço-lhes que usem a cabeça. Façam a escolha certa.

- Você contou a mesma história para o pai dela, não foi? O ludibriou para que acreditasse em suas mentiras... - André estava confuso pelo o que o doutor havia dito. Lutava contra seu raciocínio para continuar odiando o lugar, mas estava ficando sem argumentos. Teria continuado a descontar sua raiva, se não fosse interrompido por Wegner.

- O que aconteceu ao pai dela foi um erro imperdoável, eu sei. Mas, por favor, deixe-me compensar este erro. - disse Dr. Wegner, olhando para Janete.

E então, num piscar de olhos, uma figura masculina surgira do limbo. O homem era alto e musculoso. Não aparentava ter mais do que trinta anos.

- Pai? - Janete não conseguia acreditar no que via. Fazia tanto tempo que não via o rosto de seu pai, que ela já não lembrava do quanto gostava de seu sorriso.

- Janete! O que está acontecendo? Como é que eu vim parar aqui? - apesar de estar feliz por rever a filha, o pai de Janete estava muito assustado.

- Seja bem-vindo ao Cerne, Jerônimo. - disse o doutor, com um sorriso no rosto. - Sei que isso é tudo muito repentino, mas você vai se acostumando aos poucos. - o homem olhava para sua filha, que chorava por encontrar seu pai depois de uma década sem a sua presença.
Jerônimo foi ao encontro de Janete e a abraçou. André, que estava próximo dos dois, parecia confuso com tudo o que vinha acontecendo - o que não era uma surpresa, sabendo que o jovem casal havia vivido tantas novas experiências em tão pouco tempo.

O pai de Janete fez um sinal para o garoto, como se o convidasse a se juntar àquele momento. O garoto se aproximou, e Janete o abraçou. André logo percebeu que ela estava diferente. Mas não havia sido uma mudança ruim. Pelo contrário, ela estava aliviada, mais leve.

- Vocês devem estar se perguntando como é possível que eu o tenha recriado exatamente como ele era no mundo natural e por que eu não fiz isso antes. - o doutor suspirou, fazendo uma breve pausa. Ninguém se manifestou; estavam aguardando por uma explicação. - Bem, vou responder a pergunta mais fácil por primeiro.

- É melhor ter uma boa explicação mesmo, Wegner. Pois não viemos aqui para ser enganados - interrompeu-o André.

- Jerônimo. - Wegner olhou diretamente para o pai da garota. - Graças aos testes que fizemos com você, o Novo Mundo pôde se tornar o que ele é hoje. E somos todos muito gratos a isso - quando Dr. Wegner mencionou a palavra todos, a imagem de diversas pessoas veio à mente de Janete.

Pela primeira vez desde que haviam chegado ao Novo Mundo, a garota se deu conta que estavam conectados a milhões de outros indivíduos. Dr. Wegner ainda conversava com Jerônimo:

- Pude recriá-lo por que sua mente não foi completamente danificada no dia do teste. Com um pouco do meu talento e com as habilidades de artesã de minha filha Mishiro, dar vida a uma pessoa não é uma tarefa muito difícil.

- Isso é certamente muito incrível, Dr. Wegner. Mas gostaríamos de saber: por quê você não fez isso antes? Ou por quê não nos procurou e não nos contou o que havia acontecido? - por conhecer Janete como ninguém, André falava como se fizesse parte da família.

- Receio que seja por causa de razões muito complexas que eu não posso explicar agora. Simplesmente, eu não podia recriá-lo sem a autorização de um familiar. As regras do nosso mundo não permitem que isso seja feito, pois há uma série de fatores que poderiam desencadear uma confusão generalizada e até mesmo desestabilizar o sistema. Agora que você está aqui, Janete, não haveria razões para que eu não o fizesse. - havia um pouco de culpa na voz do doutor, como se ele sentisse muito por não ter sido capaz de salvar Jerônimo. - Mas como eu disse antes a vocês, são livres para fazer o que acharem certo.

Os dois estavam pensativos, tentando processar todas as informações que haviam recebido. Como poderiam não gostar daquele lugar? Mais cedo naquele mesmo dia - ou pelo menos, acreditavam que estavam no mesmo dia - haviam ido a Paris. E tinham assistido às aulas de Mishiro. E haviam descoberto que tudo o que podia ser feito aonde moravam também podia ser feito ali. Até mesmo as pessoas que viviam lá poderiam viver ali, se quisessem.

Jerônimo, ao perceber a aflição da filha, como se pudesse ler a sua mente, falou:

- Querida, ele está certo. Eu não pude voltar para contar o que eu vi naquele dia, e eu sinto muito por isso. Sinto muito por não ter visto você crescer, por não poder ter lhe dado amor… São tantas coisas pelas quais eu gostaria de me desculpar - Janete voltou a chorar. - Mas uma coisa eu preciso lhe dizer: não há o que temer; não há nada de errado em viver em um mundo virtual. Acreditem em mim. Se eu não tivesse morrido durante a transferência de mente, toda a nossa família estaria vivendo aqui. As pessoas, às vezes, acabam não entendendo, ou não querendo entender, que o mundo natural deve ser deixado de lado, mesmo que temporariamente. A natureza não quer nossa ajuda, Janete. Ela tem força para lutar por si só; sempre foi assim e assim vai continuar sendo. Temos que dar um tempo à ela. Podemos fazer isso se vivermos todos aqui.

- Pai… Eu não… Eu não sei mais o que quero… - André fez menção de abraçá-la, mas Jerônimo foi mais rápido.

- Filha, vocês não tem que tomar uma decisão tão importante como essas agora. Descansem um pouco, conheçam lugares e coisas novas. Lembre-se do que sua avó sempre falava, Janete. A única coisa que funciona bem de cabeça quente é o fósforo.

A desconfiança que Janete tinha acerca da identidade de seu pai foi embora. Afinal, por mais que uma inteligência artificial pudesse ser criada a partir de memórias de outra pessoa, ela não conseguiria reproduzir exatamente o mesmo comportamento. O abraço e a maneira de falar confirmaram aquilo que Janete mais queria: aquele era seu verdadeiro pai.

- Seu pai está coberto de razão. Vocês devem conhecer melhor o Novo Mundo para poder fazer uma comparação mais precisa, inclusive você, Jerônimo. - depois de observar calado a reconciliação entre o pai e a filha, Wegner voltou a falar. - Vocês têm todo o tempo do mundo. E quando falo todo o tempo do mundo, eu realmente digo TODO. O tempo do Novo Mundo avança de uma maneira diferente do que estão acostumados. É muito próximo do conceito filosófico de tempo real que estudávamos no início do século XX. Melhor não entrar em detalhes.

- Mas o que eu vou dizer a eles? Como poderei voltar lá e dizer que, não somente falhei na missão, como deixei de acreditar nos ideais por que tanto lutei? - perguntou Janete.

- Isso é algo que vocês vão ter que descobrir sozinhos. Sejam criativos em seus argumentos e tomem cuidado quando voltarem ao mundo natural. As portas do Cerne estarão abertas a todos vocês.
E então o doutor desapareceu, desvanecendo na escuridão do limbo.

- E o que a gente faz agora? - perguntou Janete aos dois.

- Independentemente da sua decisão, sempre estarei com você - respondeu André, de mãos dadas com a garota.

- Que tal visitarmos Roma, enquanto vocês decidem? - sugeriu Jerônimo.
- Excelente ideia, pai! - disse a garota, com lágrimas nos olhos. Mas desta vez, as lágrimas eram de alegria.

Capítulo VIII


Depois da decodificação feita por Janete, a mente de Mishiro era como um livro aberto: os dois tinham acesso a todas as memórias da artesã. Conseguiam até mesmo acessar suas lembranças pessoais, como a primeira vez que consumira um livro, o primeiro programa de computador que desenvolvera, o primeiro beijo que dera... Era tanta informação para absorver que os dois poderiam ficar entretidos por meses, talvez anos. Mas não tinham todo esse tempo.

A esta altura, seus corpos físicos deveriam estar prestes a serem descartados. Tinham que se concentrar nas informações úteis. Felizmente para os dois, navegar pela mente de uma pessoa no Novo Mundo não era uma tarefa difícil, uma vez que as ações eram realizadas intuitivamente.

Não levou muito tempo para encontrarem as informações que estavam procurando. André gostaria de agradecer Mishiro por ter uma mente tão organizada como aquela.

- Encontrei as informações que faltavam para finalizar a implementação do nosso vírus – disse André.

- Excelente – disse Janete, que estava procurando em uma seção diferente da que André pesquisava.

Após ter conseguido acessar as senhas de acesso e ter forjado várias chaves de segurança, André e Janete trabalharam juntos na construção do vírus que causaria o erro fatal nos sistemas críticos do Novo Mundo. Os dois certamente haviam se preparado muito para a missão, pois eram capazes de reestruturar seu plano conforme as circunstâncias mudavam. E estavam muito perto de conseguir o que pretendiam. Ou pelo menos, era isso que parecia estar acontecendo até o momento em que foram surpreendidos por uma voz masculina.

- Olá, garotos. Estão gostando da nova casa? – uma voz masculina soou por todo o pequeno pedaço do ciberespaço que compreendia a mente do casal.

- Ó meu Deus! Quem é você? O que está fazendo aqui? Como conseguiu quebrar a nossa criptografia? – Janete se desequilibrou por um instante – Me desculpe, senhor, mas não vê que estamos ocupados?

- Calma aí... Eu conheço essa voz de algum lugar. Algum vídeo, ou propaganda... – André fez força para se lembrar, como se estivesse consultando uma gigantesca base de dados em busca de um nome específico, mas sem saber exatamente como procurar. O que era praticamente a situação em que se encontrava. – Já sei! Você é o Dr. Wegner, o criador. É a sua voz que aparece nas campanhas publicitárias do Novo Mundo.

- Incrível, André! Ponto para você! E então, já terminaram a implementação do tão temível vírus que destruirá o Cerne? – Wegner estava empolgado, como se estivesse realmente interessado no desenvolvimento do trabalho dos doisPela primeira vez desde que entraram no Novo Mundo, André e Janete perderam completamente as esperanças.

Capítulo VII

- Ei, cuidado com as instruções que você usa, Janete! Um movimento em falso e a missão estará comprometida! – disse André, enquanto se preparava para acessar o programa de computador que interceptaria o cérebro da artesã.

- Não é fácil hackear o cérebro de uma inteligência artificial incrivelmente poderosa, André! Estou tomando o máximo de cuidado possível. – retrucou Janete, que estava muito ocupada resolvendo os quebra-cabeças de auto-defesa da mente de Mishiro. – Continue preparando o vírus enquanto eu cuido da criptografia.

Por alguns instantes, Janete pensou que não conseguiria burlar as defesas da artesã. Ela havia se deparado com o mais complexo algoritmo de encriptação que vira até então. Mas não podia falhar. Não depois de ter prometido à sua avó que vingaria a morte de seu pai. Não depois de ter lutado tanto ao lado do comitê revolucionário. Precisava rever o sol ao menos uma última vez. O sol verdadeiro, não uma imitação virtual realista.

As motivações de Janete pareciam torná-la ainda mais inteligente; a cada nova etapa, a cada cálculo e quebra-cabeças que surgiam, a garota tinha mais certeza de que conseguiria abrir as portas da mente de Mishiro.

Ao se deparar com a última porta, porém, Janete parou. Precisava tomar uma decisão importante e, por isso, decidiu dividir a escolha com André.

- Eu já descobri como decodificar as informações, mas preciso que você me ajude a fazer uma escolha. – disse Janete ao rapaz.

- Que tipo de escolha? – perguntou André.

- Há duas chaves de decodificação, mas eu não sei qual delas devemos utilizar – respondeu a garota. – Talvez não exista diferença entre usar uma ou outra, mas acho pouco provável. Senão, haveria apenas uma chave. Estou preocupada...

- Entendi – André estava impressionado com a capacidade de Janete; não era a primeira vez que a vira invadir um sistema de segurança, mas desta vez ela com certeza havia se superado. Havia criado duas chaves para uma porta fortemente protegida, em um ambiente nada familiar. Por um instante, André imaginou como Janete poderia se tornar uma artesã habilidosa, caso vivessem ali para sempre. Mas logo voltou a si; não podia acreditar que estava sequer cogitando viver naquele lugar. Não depois de tudo que passou para chegar até ali. Sentiu nojo de si mesmo por causa disso. “Meus amigos dependem de mim”, pensou André. – Parece que estamos em um impasse. Creio que você deve escolher qual chave devemos usar, afinal, foi você que conseguiu decifrar todos esses códigos.

Janete hesitou por um instante, mas sabia que era inútil tentar descobrir qual era a chave correta.

- Então está decidido. – disse a garota, enquanto começava a projetar uma das chaves em direção à porta.

Ao entrarem na mente da artesã, o limbo em que estavam mudava de forma. O lugar deixou de ser negro como a mais escura das noites, adquirindo uma tonalidade rosada, como se a mente de Mishiro estivesse se manifestando através de um gesto de boas-vindas. Os dois estavam abismados com o que acabavam de se deparar: palavras flutuando, flashes de imagens e clipes de vídeos, vozes e músicas... tudo acontecendo ao mesmo tempo. Era informação suficiente para anos de estudo no mundo natural.

- Ela é toda sua – disse Janete.

- Pode deixar comigo. – disse André.

O garoto a beijou e deu início à segunda etapa do plano: descobrir as fraquezas do sistema.

Capítulo VI


- Precisamos reconfigurar nossos guias para que não tenham acesso direto aos nossos pensamentos - disse André, preocupado.

- Eu acabei de configurar a minha guia enquanto tomávamos o sorvete. - disse Janete.

- Mulheres… Sempre fazendo mais de uma coisa por vez. - reclamou André, apesar do fato não o impressionar - Mesmo sendo um computador, ainda não consegui me acostumar a ideia de ser um homem multi-tarefas… Mas enfim, precisamos descobrir uma maneira de nos comunicar sem chamarmos a atenção dos sentinelas, ou nosso plano irá fracassar.

- Minha guia acabou de me informar que para fazer isso precisamos encontrar uma tal de Mishiro, uma artesã como aquelas que o Infiltrado nos contou. - disse Janete, parecendo não se importar com o comentário idiota de André - Com algumas dicas dela, vamos conseguir implementar os nossos vírus mais rapidamente.

- Se ela nos ajudar, é claro. Não sabemos em quem podemos confiar, Janete - André parecia preocupado. Sua mente estava funcionando a todo vapor - Mas não podemos perder tempo, ou não vamos conseguir voltar para os nossos corpos.

Assim como a propaganda que ecoava na mente de André durante a transferência dizia, tudo era possível no Novo Mundo. Desde possuir o automóvel ou o cachorro que se desejasse ter, até visitar o lugar mais inóspito do universo ou voltar no tempo. Nada era impossível. Mas, até mesmo para o impossível há limites. Obviamente, um deles é a cota de processamento de cada indivíduo. O que não é um grande problema, uma vez que o gerenciamento do processamento de dados é um processo automático habilitado por padrão em todos os indivíduos.

O outro limite, porém, é um pouco mais complicado de se lidar: a criatividade. Afinal, por mais que o poder do pensamento seja aumentado através do uso dos processadores do Novo Mundo, é impossível transformar alguém em um ser criativo instantaneamente. O processo de despertar da criatividade pode levar éons. E é justamente a capacidade de criação que diferencia um indivíduo do outro - a criatividade é o poder. E os artesãos são conhecidos por sua incrível capacidade de inventar e criar.

- Agora que você falou, André, não sabemos exatamente há quanto tempo estamos aqui - apesar de André perceber que o som não era igual ao do mundo natural, a voz de Janete era uma aproximação boa o bastante; o suficiente para transparecer a preocupação da garota - O tempo do Novo Mundo não é o mesmo do mundo natural.

- De qualquer forma, temos que agir depressa. - disse André. - Já pedi ao meu guia para que nos conecte à Mishiro.

Ao conectarem, o mundo inteiro se distorceu ao redor dos dois. A vista de final de tarde da cidade parisiense se esvaneceu, tornando-se uma mistura de roxo com diferentes escalas de cinza. Estavam no limbo. Ou simplesmente, no cenário padrão do Novo Mundo quando não havia intenção de personalização do ambiente. Aos poucos, uma silhueta feminina se revelava, uma figura jovem de cabelos louros, à altura do pescoço. Havia uma tatuagem de borboletas em seu ombro esquerdo, que estava visível por causa de seu macacão de couro, caído nos ombros.

- Vocês devem ser André e Janete. Eu sou Mishiro, a artesã mística. O que estão achando do Novo Mundo até agora? - disse uma voz feminina suave.

- Sim, somos nós mesmos. Bem, é bastante parecido com o mundo natural, mas existem algumas coisinhas especiais, muito interessantes. - disse Janete, ocultando o ódio que sentia pelo Novo Mundo.

- É tudo muito legal, mas ainda sinto um pouco de saudades do mundo natural - disse André, fingindo estar descontraído - E você, faz tempo que está no Novo Mundo?

A mulher os fitava com os olhos, examinando-os. Aparentemente, não parecia confiar no teatro dos dois garotos. Mas, para a surpresa de André e Janete, Mishiro sorriu.

- Eu fui criada aqui, no Cerne. Meu criador é a mesma pessoa que criou o Novo Mundo. - disse a mulher.

- Não brinca! Sério que você é uma das criações de Wegner? Impressionante! - desta vez, Janete estava realmente impressionada, pois jamais esperava encontrar alguém famoso logo em seu primeiro contato com estranhos.

Janete media muito bem as palavras que usava, afinal, os dois haviam encontrado a chance que precisavam para dar continuidade ao seu plano. Mishiro era a pessoa perfeita para monitorarem; as conversas da artesã poderiam ser interceptadas e, com sorte, conseguiriam obter informações privilegiadas sobre a segurança do Cerne.

- Sim, ele mesmo. Wegner, o criador. - disse Mishiro, enquanto mudava o peso de uma pé para o outro - Não me entendam mal, mas receio que não tenham muito tempo para gastar com apresentações, não é mesmo?

- Sim, desculpe-nos, senhorita Mishiro. É que nos impressionamos pelo fato de você ter sido a primeira pessoa a encontrarmos aqui. - disse André. - Mas é claro, vamos direto ao assunto.

- Estamos aqui porque queremos que nos ensine a criar programas. - disse Janete. - E também porque gostaríamos de ter um pouco de privacidade… Sabe do que estou falando, não é? - Janete enrubesceu.

- Claro, entendo perfeitamente. Não são os primeiros a me pedirem isto. Todo mundo gosta de privacidade, e é claro que a criptografia padrão não é o suficiente em alguns casos. Mas essa é não é uma tarefa simples. Vocês terão que aprender rapidamente, pois ensinarei uma única vez. - a expressão da artesã mística era difícil de decifrar. Parecia empolgada com a chegada de novos aprendizes, mas Janete desconfiava que Mishiro sabia de suas intenções.

A artesã então começou a explicar aos dois como funcionavam os programas no Novo Mundo, uma explicação que englobava desde o funcionamento mais básico dos processadores quânticos, até os mais complexos algoritmos de criptografia e inteligência artificial. Ainda bem que Janete e André eram programadores. Os dois não foram escolhidos para a missão de infiltração por mero acaso.

Para falar a verdade, os dois eram os melhores programadores que o comitê revolucionário dispunha para a missão de sabotagem. Durante a fase preparatória da missão, Janete e André pré-construíram diversos algoritmos de interceptação de dados e de criptografia, inclusive alguns possíveis vírus que poderiam vir a ser úteis na etapa final da invasão, quando pretendem inutilizar os processadores do Novo Mundo, desativando a energia que sustenta o seu funcionamento.

Depois do que pareceu ser um dia inteiro, a artesã encerrou o treinamento.

- Creio que isso seja o suficiente para uma primeira aula, jovens. Ainda há muito o que aprender, mas vocês são talentosos. Há tempos que eu não conhecia indivíduos com um potencial tão interessante quanto o de vocês dois. - disse Mishiro.

- Muitíssimo obrigado, senhorita Mishiro. Mesmo. Você é uma excelente professora, além de uma incrível artesã. - disse André.

- Obrigada, Mishiro. - disse Janete. Ao se dirigir à artesã, porém, Janete estava concentrada em outra tarefa: implantar um interceptador no processador de Mishiro.

Janete era realmente incrível, pensou André. Ela estava ludibriando a artesã com os algoritmos de interceptação de dados que havia projetado antes de migrar para o Novo Mundo. O que mais o impressionava era que ela já estava utilizando a criptografia que a recém havia aprendido, com algumas modificações próprias. Tudo para que não fossem desmascarados.

- Foi um prazer tê-la como mestre. - Janete se dirigiu carinhosamente à Mishiro, enquanto conversava com André em segredo: “Consegui. Já estamos conectados à mente dela”.

- O prazer é meu. - disse a artesã, com um sorriso no rosto - Nos veremos em breve.

Para a sorte de André e de Janete, Mishiro parecia não ter percebido que havia sido grampeada durante o encontro com o casal. A partir daquele momento, os dois não conversavam entre si sem antes criptografar cada palavra. Afinal, não podiam arriscar tudo o que haviam alcançado até aquele momento. Não teriam outra chance. A oportunidade que o casal precisava havia aparecido. Era hora de agir.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capítulos IV e V


 

Capítulo IV



Janete havia sonhado que estava na casa de praia de suas tias, em Fernando de Noronha. No sonho, ainda era uma garotinha de 8 anos de idade, e estava conversando com sua avó, Teresa. Estava triste, pois seu pai havia sido levado à força por um grupo de policiais liderados por um ciborgue. Haviam-no levado para O Cerne, pois ele havia sido selecionado para ser cobaia de uma nova funcionalidade do mundo virtual que os cientistas estavam implementando e testando.

Apesar de não entender direito o que estava acontecendo, Janete sabia que os detestava por terem lhe tirado seu amado pai. Sua avó a consolava, e tentava esconder o abatimento de ver seu genro sendo levado da família à força.

O experimento não dera certo. Naquela época, havia vezes em que não era possível transferir uma mente para o mundo virtual, principalmente quando a mente estava danificada por causa de testes mal-sucedidos. A mente do pai de Janete estava danificada demais para ser salva. A garota havia perdido seu pai para todo o sempre. E essa era a origem do ódio que Janete possuía pelo mundo virtual.

Quando se deu por conta de que estava no Novo Mundo, Janete quase não acreditou no que sentia e via: se não lembrasse que tinha passado pelo ritual de transição para o mundo virtual, jamais teria se dado conta de que algo estava diferente. Ao menos, levaria um tempo para perceber.

Janete podia ouvir, ver, cheirar e sentir; seus sentidos continuavam tão aguçados quanto eram antes da transferência. Era quase impossível não se sentir confortável com o seu novo estado físico/virtual. Isso a perturbava, pois não queria gostar de algo que sempre odiara.

- Não posso perder tempo. Tenho que encontrar André. - pensou Janete, determinada.

Embora quisesse aprender mais sobre seu novo corpo e sobre o ambiente em que estava, Janete sabia que não tinha muito tempo pra isso. Precisava encontrar André.

A garota sabia o que deveria fazer para encontrá-lo: precisava acessar a loja de aplicativos e utilitários públicos e fazer o download e a instalação de um comunicador por telepatia em seu sistema operacional.

Apesar de ter passado pelo treino que passara, ainda lhe parecia estranho o fato de que as coisas funcionavam dessa maneira. Era engraçado pensar em si mesmo como um computador. Entretanto, antes de descobrir como fazer o download, fora surpreendida por uma voz suave feminina:

- Olá, Janete. Eu sou a SA3-MV, o Sofware de Auxílio à Adaptação ao Mundo Virtual pré-instalado em seu sistema operacional. Fui configurada de acordo com análises feitas a partir de sua percepção e subjetividade. Estou a sua disposição para sanar quaisquer que forem as suas dúvidas. Portanto, caso tenha algo a perguntar, por favor, faça-o.

Janete não sabia exatamente como reagir à nova “companheira”, embora tivesse conhecimento da existência dos guias.

- Olá, SA3-MV. - disse a garota, hesitante - Tu já deve saber quem eu sou, obviamente. Então, vamos direto ao que interessa. Eu preciso encontrar um amigo meu…

- André? De acordo com o localizador, ele já está presente em nosso mundo.

- Como assim, você sabe quem é o André? Está lendo a minha mente? - disse com um tom de indignação, embora desconfiasse de que as guias tinham acesso à sua zona de informação.

- Peço desculpas se a incomodo, Janete, mas ajo de acordo com minhas predefinições. Você tem liberdade total para me reconfigurar de acordo com suas preferências.

- Ótimo, eu farei isso. Mas antes, preciso falar com André.


Capítulo V



André despertou lentamente, quase como se estivesse acordando depois de um dia cansativo de trabalho. Percebera que seu corpo era o mesmo de antes. Tudo parecia normal, como no mundo natural. Mas havia uma diferença que o incomodava bastante: o som não era perfeito como o do mundo que conhecia. Por mais que a qualidade do áudio em formato digital tivesse melhorado durante os anos, ela jamais atingira o realismo absoluto. A diferença era sútil e passava despercebida pela maioria avassaladora da população do mundo virtual. Mas por ser músico e possuir ouvido absoluto, André era capaz de notar a diferença. E isso o frustrava.

SA3-MV também aparecera para o jovem, mas o guia se apresentou de uma forma diferente da guia de Janete. Possuía uma voz masculina parecida com a de apresentador de jornal televisivo. Barítono, assim como vovô, pensou André.

Após terem se apresentando um ao outro, Djones (nome escolhido por André para seu SA3-MV) disse ao garoto que havia uma pessoa o procurando.

- Janete - deduziu.

André se comunicou com Janete através de seu comunicador telepático, e os dois decidiram se encontrar pessoalmente, em Paris. Por mais que parecesse loucura, era a verdadeira Paris. No mundo virtual, toda a existência consistia em um agrupamento de dados e metadados, inclusive os lugares, os objetos e até mesmo as pessoas.

Em outras palavras, não era necessário ir a algum lugar para se comunicar com alguma pessoa; isso poderia ser feito através de um simples “encontro telepático”, como haviam conversado André e Janete anteriormente. Mas por se basear no princípio de simulação do mundo natural, o mundo virtual permitia que as pessoas fizessem projeções de seus corpos e que navegassem por ambientes simulados, como Paris ou uma cidade completamente nova, por exemplo.

A paisagem, os objetos, as pessoas… Tudo isso era simulado através de modelos tridimensionais e comportamentos pré-programados. Simuladores de multidões e comportamento humano davam vida aos bots (que eram geralmente pessoas ou animais) que co-habitavam um ambiente. E é claro, todas as variáveis existentes podiam ser configuradas.

Você poderia escolher se estaria chovendo ou não, se estaria quente ou não, se haveriam muitas pessoas ou não. O único limite existente era a cota semanal que cada indivíduo pós-humano possuía. Afinal, assim como em um computador, os recursos não eram infinitos e precisavam ser gerenciados.

Por ser seu primeiro dia no mundo virtual - e também por que não esperavam permanecer por ali por muito tempo - André e Janete se deram ao luxo de visitar um lugar que gostavam muito, independentemente de cotas e recursos. Precisavam ver um ao outro pessoalmente.


No próximo capítulo: André e Janete finalmente dão início ao seu plano.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Capítulo III

Durante o caminho, os dois não conversaram. A viagem até a estrada de acesso durou não mais do que duas horas. Afinal, não havia ninguém além dos dois jovens naquela estrada. Ao se aproximarem da cidade, perceberam que o ar era carregado, como se fosse possível sentir a aura emanada pelas máquinas que davam vida ao mundo virtual.

Cerne era imensa: quanto mais próximos chegavam, menos conseguiam enxergar a luz do sol ou a paisagem que a cercava. A menos de um quilômetro da entrada da cidade, não era mais possível ver nada além de prédios moderníssimos com aspecto futurista e minimalista - a não ser que se olhasse para trás, o que não era uma opção para André e Janete.

O calor das máquinas podia ser sentido de dentro do carro, o que os deixou desconfortáveis, mesmo com o ar condicionado ligado. Já estavam a menos de trezentos metros de distância dos portões da cidade, e quanto mais se aproximavam, mais dúvidas surgiam. Ao chegar no portão, antes de sair do carro, Janete pegou a mão de André e fez menção em dizer algo, mas fora surpreendida por um beijo do garoto.

- Ainda não, Janete. Nós voltaremos dessa, não se preocupe. Vai dar tudo certo. - E então saíram do carro em direção ao portão mais próximo.

Ao se aproximarem, perceberam que dúzias de câmeras os observavam e que a espessura dos muros que protegiam a cidade era muito maior do que aparentava. Precisavam se proteger de possíveis ameaças, pensou André. Ameças como eles dois.

Mas não era a intenção dos jovens atacar a fortaleza com força bruta. Sabiam que era inútil. Antes da instauração plena do mundo virtual, todos os países tiveram de se desfazer de seus arsenais militares, o que impossibilitava um ataque armado à cidade núcleo.

O que planejavam, ao invés disso, era acabar com o mundo virtual por dentro, de maneira mais sútil. Utilizando astúcia ao invés de força, burlariam a segurança do mundo virtual e o tornariam instável através de ataques man-in-the-middle (interceptar dados) e hijacking (assumir o controle) na fase incial de seu plano. Posteriormente, tornariam-no inoperante através de um ataque Denial of Service fatal, a chave para a reascenção do mundo natural. Mas estavam longe de alcançar o que desejavam. Ainda precisavam entrar no mundo virtual para executar sua missão.

Ao se aproximarem da entrada, os dois foram revistados por aparelhos de raios-X. Como estavam “limpos”, logo foram encaminhados ao setor de transição, aonde passariam seus últimos momentos como humanos - não por muito tempo, pois o processo de reversão tinha que funcionar, esperava Janete.

Os dois estavam apreensivos, mas muito focados em seus objetivos. Mesmo o amor que havia entre os dois teria de esperar. Afinal, se conheceram justamente por lutarem pelos mesmos ideais. Além disso, os dois estavam confiantes de que conseguiriam por seu plano em prática.

Fizeram exatamente como uma voz eletrônica os solicitou. Cada um deles foi encaminhado a uma salinha diferente, aonde começaram o processo de transferência de mentes.

Ao entrarem em suas respectivas salas, os dois perceberam que não estavam mobiliadas, exceto por um assento preto reclinável no centro da sala. E haviam mais câmeras, é claro.

- Isso é muito estranho! Parece mais que estamos começando um ritual do que um processo de transferência de mentes! - gritou André, na esperança de que Janete, que estava na salinha ao lado, o ouvisse e o respondesse. Mas para a tristeza do rapaz, isso não aconteceu.

A voz eletrônica solicitou aos garotos que tirassem suas roupas, pois seus corpos seriam escaneados e convertidos em um modelo tridimensional de alta resolução, que seria utilizado como base para o corpo que desejassem ter no mundo virtual. Logo após, a mesma voz os solicitou que deitassem no assento reclinável. A partir daquele momento, deu-se início ao processo de transferência de mente.

Braços robóticos surgiram das paredes e do teto. Janete percebeu que um dispositivo com formato elíptico (parecido com aquelas máquinas utilizadas para se fazer penteados nos salões de beleza de filmes americanos) estava sendo colocado em sua cabeça, bem como diversos adesivos de captação neurológica estavam sendo anexados ao seu corpo.

O processo de transferência era exatamente como lhes haviam contado. A sensação porém, era muito pior do que haviam imaginado. André sentia como se todas as suas lembranças estivessem sendo projetadas em sua mente ao mesmo tempo; não conseguia raciocinar, nem se mover. Agonia, pensou o garoto. Era a única palavra capaz de explicar o que estava sentindo.

“A transferência de mentes pode causar mal-estar, enjoos, pânico e uma série de outros sintomas e sensações ruins. Mas não se preocupe: o processo dura somente alguns instantes. Será a última dor que irá sentir (sem desejar). Depois disso, terá tudo aquilo que desejar. Venha até Cerne, e descubra o que a vida no mundo virtual tem para oferecer. Você não irá se arrepender. Ninguém se arrepende”. André não podia acreditar que a dor mencionada nas propagandas do mundo virtual era tão insuportável quanto a que estava sentindo naquele momento. Sua última lembrança como humano foi o rosto de Janete, na primeira vez em que a beijou.

A última lembrança da garota, por sua vez, foi a dor excruciante que sentiu em sua cabeça no momento da cópia. Quando a transferência terminou, seus corpos foram recolhidos pelos braços robóticos e encaminhados ao setor de descarte.Estava dado início à corrida contra o tempo. Se quisessem destruir o mundo virtual e voltar ao mundo natural antes que seus corpos fossem descartados, precisavam agir rapidamente.