- Precisamos reconfigurar nossos guias para que não tenham acesso direto aos nossos pensamentos - disse André, preocupado.
- Eu acabei de configurar a minha guia enquanto tomávamos o sorvete. - disse Janete.
- Mulheres… Sempre fazendo mais de uma coisa por vez. - reclamou André, apesar do fato não o impressionar - Mesmo sendo um computador, ainda não consegui me acostumar a ideia de ser um homem multi-tarefas… Mas enfim, precisamos descobrir uma maneira de nos comunicar sem chamarmos a atenção dos sentinelas, ou nosso plano irá fracassar.
- Minha guia acabou de me informar que para fazer isso precisamos encontrar uma tal de Mishiro, uma artesã como aquelas que o Infiltrado nos contou. - disse Janete, parecendo não se importar com o comentário idiota de André - Com algumas dicas dela, vamos conseguir implementar os nossos vírus mais rapidamente.
- Se ela nos ajudar, é claro. Não sabemos em quem podemos confiar, Janete - André parecia preocupado. Sua mente estava funcionando a todo vapor - Mas não podemos perder tempo, ou não vamos conseguir voltar para os nossos corpos.
Assim como a propaganda que ecoava na mente de André durante a transferência dizia, tudo era possível no Novo Mundo. Desde possuir o automóvel ou o cachorro que se desejasse ter, até visitar o lugar mais inóspito do universo ou voltar no tempo. Nada era impossível. Mas, até mesmo para o impossível há limites. Obviamente, um deles é a cota de processamento de cada indivíduo. O que não é um grande problema, uma vez que o gerenciamento do processamento de dados é um processo automático habilitado por padrão em todos os indivíduos.
O outro limite, porém, é um pouco mais complicado de se lidar: a criatividade. Afinal, por mais que o poder do pensamento seja aumentado através do uso dos processadores do Novo Mundo, é impossível transformar alguém em um ser criativo instantaneamente. O processo de despertar da criatividade pode levar éons. E é justamente a capacidade de criação que diferencia um indivíduo do outro - a criatividade é o poder. E os artesãos são conhecidos por sua incrível capacidade de inventar e criar.
- Agora que você falou, André, não sabemos exatamente há quanto tempo estamos aqui - apesar de André perceber que o som não era igual ao do mundo natural, a voz de Janete era uma aproximação boa o bastante; o suficiente para transparecer a preocupação da garota - O tempo do Novo Mundo não é o mesmo do mundo natural.
- De qualquer forma, temos que agir depressa. - disse André. - Já pedi ao meu guia para que nos conecte à Mishiro.
Ao conectarem, o mundo inteiro se distorceu ao redor dos dois. A vista de final de tarde da cidade parisiense se esvaneceu, tornando-se uma mistura de roxo com diferentes escalas de cinza. Estavam no limbo. Ou simplesmente, no cenário padrão do Novo Mundo quando não havia intenção de personalização do ambiente. Aos poucos, uma silhueta feminina se revelava, uma figura jovem de cabelos louros, à altura do pescoço. Havia uma tatuagem de borboletas em seu ombro esquerdo, que estava visível por causa de seu macacão de couro, caído nos ombros.
- Vocês devem ser André e Janete. Eu sou Mishiro, a artesã mística. O que estão achando do Novo Mundo até agora? - disse uma voz feminina suave.
- Sim, somos nós mesmos. Bem, é bastante parecido com o mundo natural, mas existem algumas coisinhas especiais, muito interessantes. - disse Janete, ocultando o ódio que sentia pelo Novo Mundo.
- É tudo muito legal, mas ainda sinto um pouco de saudades do mundo natural - disse André, fingindo estar descontraído - E você, faz tempo que está no Novo Mundo?
A mulher os fitava com os olhos, examinando-os. Aparentemente, não parecia confiar no teatro dos dois garotos. Mas, para a surpresa de André e Janete, Mishiro sorriu.
- Eu fui criada aqui, no Cerne. Meu criador é a mesma pessoa que criou o Novo Mundo. - disse a mulher.
- Não brinca! Sério que você é uma das criações de Wegner? Impressionante! - desta vez, Janete estava realmente impressionada, pois jamais esperava encontrar alguém famoso logo em seu primeiro contato com estranhos.
Janete media muito bem as palavras que usava, afinal, os dois haviam encontrado a chance que precisavam para dar continuidade ao seu plano. Mishiro era a pessoa perfeita para monitorarem; as conversas da artesã poderiam ser interceptadas e, com sorte, conseguiriam obter informações privilegiadas sobre a segurança do Cerne.
- Sim, ele mesmo. Wegner, o criador. - disse Mishiro, enquanto mudava o peso de uma pé para o outro - Não me entendam mal, mas receio que não tenham muito tempo para gastar com apresentações, não é mesmo?
- Sim, desculpe-nos, senhorita Mishiro. É que nos impressionamos pelo fato de você ter sido a primeira pessoa a encontrarmos aqui. - disse André. - Mas é claro, vamos direto ao assunto.
- Estamos aqui porque queremos que nos ensine a criar programas. - disse Janete. - E também porque gostaríamos de ter um pouco de privacidade… Sabe do que estou falando, não é? - Janete enrubesceu.
- Claro, entendo perfeitamente. Não são os primeiros a me pedirem isto. Todo mundo gosta de privacidade, e é claro que a criptografia padrão não é o suficiente em alguns casos. Mas essa é não é uma tarefa simples. Vocês terão que aprender rapidamente, pois ensinarei uma única vez. - a expressão da artesã mística era difícil de decifrar. Parecia empolgada com a chegada de novos aprendizes, mas Janete desconfiava que Mishiro sabia de suas intenções.
A artesã então começou a explicar aos dois como funcionavam os programas no Novo Mundo, uma explicação que englobava desde o funcionamento mais básico dos processadores quânticos, até os mais complexos algoritmos de criptografia e inteligência artificial. Ainda bem que Janete e André eram programadores. Os dois não foram escolhidos para a missão de infiltração por mero acaso.
Para falar a verdade, os dois eram os melhores programadores que o comitê revolucionário dispunha para a missão de sabotagem. Durante a fase preparatória da missão, Janete e André pré-construíram diversos algoritmos de interceptação de dados e de criptografia, inclusive alguns possíveis vírus que poderiam vir a ser úteis na etapa final da invasão, quando pretendem inutilizar os processadores do Novo Mundo, desativando a energia que sustenta o seu funcionamento.
Depois do que pareceu ser um dia inteiro, a artesã encerrou o treinamento.
- Creio que isso seja o suficiente para uma primeira aula, jovens. Ainda há muito o que aprender, mas vocês são talentosos. Há tempos que eu não conhecia indivíduos com um potencial tão interessante quanto o de vocês dois. - disse Mishiro.
- Muitíssimo obrigado, senhorita Mishiro. Mesmo. Você é uma excelente professora, além de uma incrível artesã. - disse André.
- Obrigada, Mishiro. - disse Janete. Ao se dirigir à artesã, porém, Janete estava concentrada em outra tarefa: implantar um interceptador no processador de Mishiro.
Janete era realmente incrível, pensou André. Ela estava ludibriando a artesã com os algoritmos de interceptação de dados que havia projetado antes de migrar para o Novo Mundo. O que mais o impressionava era que ela já estava utilizando a criptografia que a recém havia aprendido, com algumas modificações próprias. Tudo para que não fossem desmascarados.
- Foi um prazer tê-la como mestre. - Janete se dirigiu carinhosamente à Mishiro, enquanto conversava com André em segredo: “Consegui. Já estamos conectados à mente dela”.
- O prazer é meu. - disse a artesã, com um sorriso no rosto - Nos veremos em breve.
Para a sorte de André e de Janete, Mishiro parecia não ter percebido que havia sido grampeada durante o encontro com o casal. A partir daquele momento, os dois não conversavam entre si sem antes criptografar cada palavra. Afinal, não podiam arriscar tudo o que haviam alcançado até aquele momento. Não teriam outra chance. A oportunidade que o casal precisava havia aparecido. Era hora de agir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário